VOU NA SAGA CAMINHANDO PARA SEGUIR ARIANO

 

  Literatura de cordel


VOU NA SAGA CAMINHANDO

 PARA SEGUIR ARIANO 


  Por Paulo Tarciso Freire de Almeida

 

 Mais um trabalho em cordel
Nesta hora lhe apresento
E falo com muito orgulho
Do homem rico em talento
O seu nome vou dizer
Cuidado, não esquecer
Me escute neste momento.

ARIANO SUASSUNA
Que nasceu em vinte e sete |(1927)
Dia dezesseis de junho
O Brasil não se esquece
Onde cresceu, vou dizer
Anote agora você
Nossa Senhora das Neves.

Cidade de João Pessoa
O Estado é Paraíba
O lugar que viu nascer
Lhe dando logo acolhida
Palácio da Redenção
João Urbano, o pai então
Fez uma festa bonita.


Cássia Vilar Suassuna
Sua mãe, uma fortaleza
Era fora do comum
Ele disse com certeza
Ficou viúva ainda jovem
Quando lembra se comove
Mas tinha muita braveza.

Mesmo viúva cuidou
Dos nove filhos sozinha
Com o marido assassinado
Ação covarde e mesquinha
Cuidou e educou os filhos
Fez um grande sacrifício
Atitude de rainha.

Seu pai foi Governador
Da Paraíba, o Estado
Mas antes o ele exerceu
O cargo de Deputado
Quando Ariano nasceu
A família assim cresceu
Dos filhos foi o oitavo.

Quando estudava o primário
Seu contato começou
Com a cultura regional
Vários fatos “lhe marcou”
Desafios de viola
Mamulengos e portinhola
Improvisos que encantou.

No ano de trinta e oito (1938)
A família se mudou
Para a capital Recife
E o biógrafo registrou
Americano Batista
Num colégio de elite
Sua família o internou.

No ano quarenta e três (1943)
Ariano estudou
Ginásio Pernambucano
E nesse tempo iniciou
Fazendo literatura
Quando o poema Noturno
No Jornal se publicou.

Depois estudou direito
No ano quarenta e seis (1946)
Ele até conta brincando
Dizendo de uma vez
Que naquele tempo ao certo
O leque que estava aberto
Opões só tinham três:

Se o pivete gostasse
De fazer cálculos ou conta
Era pra Engenharia
No seu lápís faça a ponta
O caminho está traçado
Não corra pra o outro lado
“Vá logo cabeça tonta! “

Mas se o menino gostasse
Com lagartixa brincar
Cortar, rabo o seu bucho
Para depois costurar
A escolha é medicina
Seja menino ou menina
Opção melhor não há.

Se o moleque não gostasse
E quisesse outra opção
Ia estudar Direito
Mesmo sem ter vocação
Comigo isso ocorreu
Cultura me socorreu
Só ela me deu razão.

Quando se tem vocação
Estudo o que lhe aprouver
Mas pra mim fazer direito
Lhe afirmo e boto fé
Vocação não possuía
Mesmo com livro e mobília
Tive que “arredar o pé”.

Na Faculdade de Direito
Em Recife ele fundou
O Teatro do Estudante
Hermilo Borba o ajudou
No ano quarenta e sete (1947)
Escreveu famosa peça
“Uma mulher vestida de sol”.

No ano quarenta e oito (1948)
Nova peça teatral
“Cantam as harpas de Sião”
Sucesso fenomenal
Já no ano de cinquenta (1950)
Mais um ato se contempla
No Direito a conclusão.

Começa a se dedicar
Direito e advocacia
Ele mesmo se declara
A profissão não o queria
A escrita era seu dom
A ela se dedicou
Até o seu último dia.

No ano quarenta e oito (1948)
Sua peça teatral
“Mulher vestida de sol”
Sobe sim, mais um degrau
Vai pra o Rio de Janeiro
E o nome do pioneiro
Participa em festival.

Gosto de história de doidos
Porque eu sou um também
Lembro um doido especial
Pra que eu dou nota cem
Vou lhe contar esse fato
Pra lhe mostrar neste ato
O que a história contém:

Eu tenho um primo Saul
Que dizia mesmo assim:
Nossa família Ariano
Tem doido que não tem fim
O que não atira pedra
Vai juntando pelas serras
E entregando pra mim.

Eles enxergam as coisas
De um jeito original
Vejam que em um hospício
Ou melhor, num hospital
Que só cuidava de doidos
Que existia em João Pessoa
Esse fato especial:

A terapia do trabalho
Começaram a aplicar
A cada doido entregaram
Carroça pra trabalhar
E um deles vinha andando
Com a carroça virando
Um doutor foi perguntar:

-Meu amigo está errado,
Bote a carroça pra cima
Ele respondeu: -Eu sei
Não quero e ninguém me ensina
Mas quando eu faço assim
Enchem de pedra e por fim
E o peso ninguém domina.

Minha querida cidade
Chamada Taperoá
No Sertão da Paraíba
Que sempre vem me inspirar
Manoel Bento um doido
Se escorou em um poste
O seu ouvindo encostando
Como se fosse escutar.

Encostando o ouvido
No poste se agarrou
Outro popular passando
Vendo a cena que chocou
No poste encostou também
Querendo ir mais além
Com a orelha testou.

Passada então meia hora
Já tinha bem cinco ou seis
Se agarrando com o poste
E esperando a vez
Pra ver o que ali ocorria
Até quando alguém dizia:
Mané Bento o que tú vês?

Ele olhando para os seis
Foi respondendo assim
Desde cedo que eu tento
Mas o silêncio é sem fim
Como vocês estão vendo
Vocês perderam seu tempo
Por se juntarem a mim.

Outra coisa que Ariano
Discordava até demais
Era quando alguém trocava
Nossa fala e coisas mais
Por culturas “importadas”
Que não nos levam a nada
Deixando a nossa pra trás.

A música que hoje tocam
Não cansou de criticar
Sem ritmo, sem poesia
Como podem escutar
E lhe dizia seu neto:
Vovô, o Senhor fique quieto
Logo, logo e está perto
Ainda pode piorar!

“O auto da compadecida”
Grande peça teatral
Que foi transformada em filme
Sucesso fenomenal
Se enquadra na tradição
Milagres em cada ação
Uma obra magistral.

Vou citar algumas obras
Desse grande escritor
“Farsa da boa Preguiça”
“O Arco Desolado”
“O Auto de João da Cruz”
E pra não deixar em luz
Grande romance chegou:

“A Pedra do Reino”, cito
“O Pasto incendiado”
“A Caseira e a Catarina”
Outro de cinquenta e quatro (1954)
Que é “O Rico Avarento”
Para lhe deixar por dentro
Tem também “O Almanaque”.

Quem não lembra de João Grilo
Um personagem sagaz
Astuto e por muito esperto
Que nunca fica pra traz
E o Chicó o seu amigo
Mesmo enfrentando o perigo
Um ao outro são leais.

O enterro do cachorro
A cultura nordestina
Nossa religiosidade
Que sempre, sempre fascina
Fome, seca e cangaceiros
No nordeste sempre esteve
E o socorro vem de cima.

Movimento Armorial
Com o fim de realizar
Uma arte brasileira
Erudita e popular
Elementos originais
E as festas especiais
Pra nossa terra exaltar.

O folheto de cordel
O cantador de viola
O embolador de côco
Fez parte da sua história
Academia Brasileira
De Letras foi bem certeira
Colocá-lo na memória.

A cadeira trinta e dois
Ariano ocupou
Foi no ano de noventa (1990)
Que ele ali se assentou
Levando nossa cultura
Às mais profundas alturas
O Brasil lhe consagrou.

Você acredita em Deus?
Perguntaram a Ariano
Ele respondeu que “sim”
E complementou seu plano:
Sem ter fé no criador
Aquele que me criou
Fico sem vida e “voando”.

Natural da Paraíba
Mas amava Pernambuco
Terra que lhe acolheu
Onde rendeu muito fruto
Por isso Miguel Arraes
Governador muito assaz
Lhe deu um outro atributo.

Secretário de cultura
Cargo que ele exerceu
Com muita honra e lisura
Todo país conheceu
Sua “Aula Espetáculo”
E sem nenhum obstáculo
A nossa arte ascendeu.

Dizia nosso Ariano
“Arte pra mim é missão”
E eu tenho duas armas
Pra lutar com a depressão
Contra a morte e a tristeza
Com elas tenho certeza
Vencerei a solidão:

O riso vem a cavalo
E o galope do sonho
Com essas armas venço tudo
E não me sinto enfadonho
Viver assim dar prazer
E amigos pra conviver
Por isso vivo risonho.

“Que eu nunca venha a perder
Vontade de ter amigos
Mesmo sabendo que um dia
Sendo os novos ou antigos
Um dia irão embora
Enquanto não chega a hora
Eu quero tê-los comigo.

Como cada um de nós
Tem a hora do chamado
Quarta feira vinte e três
De Julho, final da tarde
Dois mil e quatorze o ano
“Encantou-se” o Ariano
Deixando muita saudade.

Ainda tive o privilégio
De duas vezes conversar
Com esse grande ser humano
Nele pude contemplar
Pureza e sabedoria
Humildade e galhardia
De quem sempre hei de lembrar.

Deixou aqui seu legado
Muitos vídeos com lição
Livros bons, lindas histórias
Sua terra e seu torrão
Hoje descansa em paz
Como Deus sabe o que faz
Dê a ele um galardão.

Buíque, 30 de Setembro de 2021
Paulo Tarciso Freire de Almeida
Autor







































2 comentários:

  1. Grande cordelista, artista de sensível olhar sobre a arte, e de arte fazer. Primor de cordel sobre Ariano, rimas sempre muito bem trabalhadas em sua simplicidade corrente, visão curada na tradução do belo. Uma beleza, amigo Paulo Tarciso.

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  2. Parabéns amigo. Sempre valorizando a cultura buiquense com seus cordéis.

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