O MENINO QUE JÁ NASCEU DOUTOR


Literatura de cordel
O MENINO QUE JÁ NASCEU DOUTOR
Por Paulo Tarciso


Esta história é de um jovem
Que sonhava ser doutor
Porém de família pobre
Desde criança lutou
Até realizar seu sonho
Ô Caba esperto medonho
Pra isso muito penou.

O importante é que ele
Conseguiu realizar
Seu sonho desde a infância
Por isso é bom me escutar
Vamos então, sua história
Pode guardar na memória
Se quiser, pode o imitar.

Seu nome é Dr. VANALDO
DE ARAÚJO PEREIRA
Caba de boa família
Alegria a vida inteira
Seu pai foi Zezinho Dentista
Na piada ao mais artista
Foi o rei da brincadeira.

Dona Daquinha sua mãe
De uma mente sem par
Lembra de tudo e de todos
E nunca foi de largar
A missão que Deus lhe deu
Criou os filhos e assim eu
Quero lhe homenagear.

Vanaldo é de Buíque
Correu nas ruas ao luar
Jogou bola e pião
Mas nunca a se descuidar
Dos seus estudos e da escola
Mantendo em sua memória
Sempre o primeiro lugar.

Ainda jovem o menino
Aprendeu tocar violão
A moçada ao seu redor
Todos lhe davam atenção
Fez parte até de coral
Sempre aos amigos leal
Assim foi a formação.

Desde os tempos de criança
O chamavam de Doutor
Não sei qual foi a origem
Mas que deu certo e vingou
Em Maceió a capital
Autoridade legal
Do Estado é Procurador.

Ainda quando estudava
Na escola estadual
Na Vigário João Inácio
Se destacava sem igual
Fez papel de advogado
Se mostrava preparado
Ali já dava um sinal.

O professor fez um júri
Pois queria incentivar
Os alunos da escola
Pra profissões estudar
Promotor ou advogado
Ou Procurador de Estado
E quem queria enfrentar?

O Doutor disse: - Eu vou.
Meu nome pode escrever
Me diga como é o caso
Prometo vou defender
E se eu for o promotor
Coitado do réu – favor
Não tem como se esconder.

Mas se eu for o Juiz
Na hora de sortear
Pode deixar que eu me viro
Não sou de arrodear
Vou estudar todos três
E vou mostrar pra vocês
Prometo não me engasgar.

No dia que foi marcado
Na hora de sortear
Vanaldo foi escolhido
E para patrocinar
A defesa de um réu
Abandonado e ao léu
E fez pra impressionar.

No final do simulado
Absolveu logo o réu
A platéia o aplaudia
Muitos tiravam o chapéu
Diziam os professores
Daqui vai sair doutores
Esse menino é do céu!.

Ele vai ter um futuro
Acabou de demonstrar
Ainda um adolescente
Como é de se explicar?
Falar no público e sem medo
Ele falou com um sossego
Ele vai se destacar!

O tempo que não espera
Passou e ele cresceu
Terminou o segundo grau
Uma idéia nasceu
Ir para o seminário
Queria ser um vigário
Assim disse: Lá vou eu!

Foi para o Rio de Janeiro
Passou um ano por lá
Mas uma grande enchente
Fez o menino mudar
Voltar pra sua cidade
Fez isso contra a vontade
Mas não foi muito esperar

No ano seguinte ele
Mudou-se pra Fortaleza
Outro seminário abriu-se
Estudo bom com certeza
Ali passou mais um ano
Estudos se aprofundando
E acabou-se a peleja.

Decidiu não mais ser padre
Não é minha vocação
Vou estudar pra “Direito”
Mesmo sem ter condição
Tentou e foi aprovado
Tudo que fez foi marcado
Com fé, determinação.

No Recife ele passou
Na Católica e Federal
Estudou nesta segunda
Destacou-se sem igual
Quando o curso terminou
Uma nova se marcou
Outro fato especial:

Concurso pra Delegado
Ele se inscreveu então
Foi aprovado de cara
E foi grande a emoção
Sem nome no edital
Foi um marco especial
E mais uma aprovação.

Quando ele foi assumir
Tava cheio de alegria
Agora eu sou Doutor
Vou honrar minha “famia”
E para tomar a posse
Chega lhe deu uma tosse
Pois tava chegando o dia.

Foi pras bandas do Sertão
Terra dos seus genitores
E numa festa danada
Doces de todos sabores
Foi ele, a mãe e os irmãos
Todos juntos, deram as mãos
O céu ao vivo e a cores.

Chegando lá na cidade
Primeiro foi abraçar
Alguns parentes e amigos
Que ainda estavam por lá
Logo depois dos abraços
Antes de chegar o cansaço
A DP foi visitar.

Logo de longe avistou
Uma casa velha incardida
Um portão sem cadeado
A rural velha caída
E uma placa pendurada
Velha feia e enferrujada
Na porta lá da saída.

Delegacia de polícia
Faltava o “CIA” final
Fica só com DELEGA
Não era um bom sinal
Mesmo assim foi se achegando
E ali se apresentando
Foi um barato legal.

Quando entrou lá no prédio
A cena não foi fiel
Um PM muito gordo
Descalço e sem o chapéu
Tava no birô sentado
Pense num caba folgado
Dizia eu sou do Quartel.

Outro PM estava
Sem camisa às gargalhadas
Fumava até pelas ventas
E todos ali jogava
Baralho, também fubica
E as risadas e as tabicas
E a anarquia reinava.

Quando o Doutor foi entrando:
“- Boa tarde minha gente!”
O gordão pulou em pé
O outro “queimou os dentes”
Baralho caiu no chão
Foi aquela confusão
Foi tudo tão de repente.

- Sou o novo Delegado
Hoje eu vim assumir
Se apresentem por favor
Pois vim aqui pra servir
Será um grande prazer
Quero a todos conhecer
Passar anos por aqui!.

- Eu sou TITO, o comissário
Desculpa por está fumando
Esse aqui é seu Pretinho
À disposição estamos
Um PM e um civil
Trabalho igual não se viu
Vamos, Doutor se assentando!

Foi puxando uma cadeira
Por sinal a do birô
Quando o Doutor foi sentando
Coitado não se ligou
Faltava a perna traseira
A queda foi traiçoceira
O terno logo sujou.

Foi caindo pelo chão
Sujou mãos e paletó
- Desculpa, sua excelência
É que eu sempre estou só
Esqueci desse defeito
Perdão, pois não sou perfeito
Foi porque quebrou-se o nó!.

Passado o susto o doutor
Perguntou ao comissário
- Tito, e o computador
Funciona a todo horário?
- Mas o que é isso doutor
Não seja assim, meu senhor.
Seja um pouquim moderado!

- Venha aqui que eu lhe mostro
O nosso computador
Ele é novo e sem defeito
Explico para o senhor
Ta faltando cinco teclas
É Olivett, essa presta
Muito nos auxiliou.

- E as armas que nós temos?
Perguntou o Delegado.
-Ah, essas são as melhores
Que existem no Estado
Espingarda soca-soca
Não erra a mira na toca
Dá tiro pra todo lado.

- E a nossa viatura
Tô ansioso pra vê-la!
- Pois venha aqui seu Doutor
Tenha prazer conhecê-la
Quando abriu a garagem
Veja só que malandragem
Se completou a tristeza.

Era uma rural velha
A placa já pendurada
Só funcionava um farol
A lataria amassada
Tava amarrada uma porta
A do motorista torta
Só no empurrão pegava.

E quem é o comandante
Mande chamar por favor!
Quero conhecer meu grupo
Pra trabalhar com louvor
O comissário correu
Zé pretinho esmoreceu
E depois se espreguiçou.

Poucos minutos depois
Lá vai chegando um magrelo
Mancando de uma perna
Os dentes todo amarelo
Foi batendo continência
Cumprimentando a excelência
O grito foi qual martelo.

- Pois não, Doutor, às suas ordens
Aqui está o comandante
Quando foi abrindo a boca
A chapa caiu num instante
Ele apanhou bem ligeiro
No momento traiçoeiro
Queria ser elegante.

Quando foi se abaixando
Para a prótese apanhar
Os óculos só de uma perna
Soltando lá do lugar
Caiu quebrou duas lentes
Veja que cara demente
Para o doutor auxiliar.

- Desculpa sua excelência
É que estou mui cansado
Já quase sessenta anos
Trabalho aqui é dobrado
Veja só que prejuízo
Desse aparelho eu preciso
Exame e óculos quebrado.

- Não tem problemas amigo
Disse assim sua Excelência
Faça o exame que eu pago
Dou óculos, é emergência
Vamos trabalhar com ordem
Assim nós tudo resolve
Honestidade e decência.

Na manhã do outro dia
A primeira ocorrência
Para o doutor resolver
Tomar sua providência
Um cidadão tava morto
Veja só que caso torto
Trouxeram para a Excelência.

O morto tinha dez filhos
Só que cinco era de ZITA
Outros cinco era de JOANA
E o caso dessa desdita
Era pra velar o morto
Naquele grande desgosto
Na casa de quem ele fica?

A mais nova já dizia:
Foi ele quem me escolheu
A outra dizia e eu?
E o casamento meu?
Tu é só amancebada
Vai procurar tua estrada
Quem disse que o morto é teu?.

E a briga ia aumentando
Diante do comissário
O Delegado ia entrando
Vendo o barulho danado
- Vão se calando ligeiro
Que vergonha, um mundiceiro
Vou resolver sem agrado!.

Quem é casada com o morto?
- Eu, respondeu a idosa!
Com quem vivia o finado
- Foi comigo, ô triste hora!
- Pois ta resolvido o caso
Não tem discórdia ou agravo
Vamos resolver agora!

Nisso dois filhos do morto
Do primeiro casamento
Começam a bater boca
Logo ali mesmo, lá dentro
Com dois filhos da novinha
Chega a zuada “tinia”
Um verdadeiro tormento.

- Callllaaaaados!, essa foi a ordem
Que o Delegado falou
-Vocês respeitem essa casa
Me façam agora um favor
Peguem o defunto agora
Daqui até às 11:00 horas
Na casa onde morou.

-Primeiro vai ser com ZITA
Até hoje ao meio dia
Depois vocês levam o morto
Para casa onde ele vivia
De D. JOANA, a segunda
Depois todos se ajuntam
Mas isso em pura harmonia.

Se não me obedecerem
Vou ter que gente prender
Não tem cadeia que caiba
Por isso que eu vou dizer
Não me faltem com respeito
Se não encontro outro jeito
Para o caso resolver.

Nisso a questão resolvida
Foi só a primeira ocorrência
O enterro foi em paz
O doutor marcou presença
As famílias se ajuntaram
E a tardinha enterraram
Com choro e muita clemência.


Certa feita estava ele
Noutra cidade em plantão
Como tudo estava calmo
Chegando a noite então
Ele foi a um restaurante
Cheio de gente elegante
Arejar a mente, e então.

O som estava gostoso
Música ao vivo escutava
Seleção de qualidade
Depois de um “drink” ali estava
Quando toca o celular
Ele de pronto a escutar
Já uma queixa o esperava.

Uma mulher pelo fone
Ligou pra delegacia
Pedindo uma providência
E a reclamante dizia
Que na rua onde morava
Um som alto a perturbava
E ninguém perto dormia.

Era ali no restaurante
Onde estava o Delegado
Ele atendendo ao agente
Disse assim: Ta tudo errado
Pois estou aqui ouvindo
Se não tem gente dormindo
Espere o cantar do galo!

Mesmo assim chamou o homem
Que do som ali cuidava
E disse-: baixe um pouquinho
Pois a mulher reclamava.
Só pra dar satisfação
E evitar confusão
E a festa continuava.

Quando foi com uma hora
Novo toque ao celular
Era o agente de novo
Nova queixa a registrar
Compareça seu doutor
Essa aqui só o senhor
Vai decidir e assinar.

Quando chegou na DP
Uma surpresa esperava
Um jovem adolescente
Na sala o aguardava
Chorando preocupado
Porque ali foi flagrado
Coisando” com a namorada.

- O que foi que ele fez?
Perguntou para o agente
-Ele tava ali “coisando”
Dentro do carro ai na frente
O Doutor disse: - Só isso?
Perderam tempo com um cisco
Êita menino decente.

- A mulher não é maior?
Deixe o bichim namorar!
-Mas na frente da DP?
- Melhor e seguro não há
É melhor que o meio da rua
Ou mesmo ao claro da lua
Pra todos ver e desejar.

Disse assim para o jovem:
- Não chore não meu rapaz
Isso é coisa normal
Será um orgulho aos pais
Só vou fazer o registro
Porque se não me complico
Mas mesmo assim vá em paz!.

Outro dia o Doutor tava
Em sua delegacia
Uma bronca apareceu
Era quase meio dia
Um homem roubou um pato
Do seu vizinho no mato
E foi aquela agonia.

Prenderam logo o ladrão
Vieram para o doutor
Discórdia, briga e fofoca
Ninguém ali perdoou
O pato já tava morto
E era aquele alvoroço
Que o gabinete lotou.

Tentando ali um acordo
Nem réu nem vítima aceitava
Uma proposta ele fez
Pra parar logo a “Zuada”
Quanto é seu pato senhor?
Vinte reais seu doutor
Tome, e peguem a estrada.

O doutor pagou o pato
Literalmente e assim fez
Dizendo eu vou perder tempo
Com pinto ou pato e freguês
E assim resolveu o caso
Sem perder tempo ou atraso
Não lembro o ano ou o mês.

E o tempo correu na linha
Doutor só a estudar
Visava então outro cargo
Ali foi só começar
E como tem competência
Sem perder a paciência
Não demorou chegar lá.

Curso pra Procurador
De Alagoas, o Estado
Inscreveu-se e não deu outra
Foi de primeira aprovado
Hoje está em Maceió
Dos empregos o melhor
Sempre disposto e animado.

Além da grande “sabença”
Dos estudos e faculdade
Aprendeu tocar violão
Teclado, facilidade
Agora está com oito baixos
E quando a puxa nos braços
É dança pra todo lado.

Amizade é só com ele
Piada e causos o melhor
Cantoria verso e prosa
Canta que afina o gogó
Roda de amigo e conversa
Com ele tudo é só festa
Se tá bom fica melhor.

Deixo aqui o meu abraço
A esse grande cidadão
Dr. VANALDO é da gente
Nunca esquece o seu torrão
Vem aqui de quando em vez
Sua família aqui fez
Nome, honra e tradição.

Buíque, 22-03-2011, às 17:45 horas.
Paulo Tarciso Freire de Almeida
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