LAMPIÃO TÁ EM PASÁRGADA (A ressurreição de Lampião)



Literatura de cordel
LAMPIÃO TÁ EM PASÁRGADA
(A ressurreição de Lampião)
Por Paulo Tarciso


Lampião ressuscitou
Em dois mil e dezesseis
Se levantou do sepulcro
Disse agora é minha vez
De mudar a minha vida
E acabar com as intrigas
Que tive aqui com vocês.


Mas viu tanta diferença
Do tempo que aqui viveu
Que pensou: “Tô enganado
Ou desvairado sou eu
Pois tá tudo diferente
Dos tempos de antigamente
O que foi que aconteceu?”
  
Quando saiu pela rua
Viu uma jovem andando
Com um fio na orelha
E sozinha conversando
Não tinha ninguém por perto
Ele pensou logo ao certo
É uma alma penando.

Mas era o celular
Que a moça ali usava
Coisa que não conhecia
Tempos pós modernidade
Mas continuou andando
Muita coisa observando
Em tudo uma novidade.

Chegando ali na praça
De sua antiga cidade
Viu uma fila de moto
Em alta velocidade
“Vixe o que diabo é isso
Cavalo, burro, ou jerico
Sem sela, rincho e sem grade?”.


Passando frente um boteco
Um cabra lhe conheceu:
Foi dizendo ali na hora:
O que foi que ocorreu
E tu não tinha morrido
E como agora está vivo
Credo em cruz, socorro meu!.

E por quê tu anda só
Cadê teus cabras valentes
Lampião lhe respondeu:
Agora sou mais prudente
Eu quero viver em paz
Com velho, moça ou rapaz
E não como antigamente.

Ia passando na praça
Quando chegou adiante
Viu um casal passeando
Por sinal muito elegante
Lembrou Maria Bonita
E disse: Ô triste desdita
Viver aqui bem distante.


Já fazia muitos anos
Que ele havia morrido
Das novas daqui da terra
Por certo não tinha ouvido
Teve logo uma impressão
Ou eu estou em Plutão
Ou num planeta esquecido.

Passando por uma escola
Era festa cultural
Viu sua foto num quadro
Chegou perto e num varal
Viu folheto de cordel
Sua chegada no céu
Mas que barato legal!

O povo aqui me admira
Me chamam até de herói
Mas se o tempo voltasse
Os erros que fiz de “mói!
Não faria novamente
Seria bem mais prudente
Pois só o amor constrói”.


Quando foi se aproximando
Muita gente ali correu
Com medo de Lampião
Mas ele um aceno deu
Não precisa mais correr
Pois quero aqui viver
O valentão já morreu.

Queria rever a casa
Onde ele aqui  viveu
Abraçar alguns parentes
Que nem com o tempo esqueceu
Sei que ao menos um bisneto
Deve haver aqui por perto
Que tenha o sangue meu.

Adiante Lampião
Passou, viu uma Lan House
Tinha um magote de jovens
Como presos na garagem
Olhando para uma tela
Hora verde, hora amarela
Foi pensando: que bobagem!

Por um salão de beleza
Pelo vidro ele viu
Moça secando cabelo
Sobrancelha já sentiu
Como tudo está mudado
Vivi num tempo atrasado
A coisa aqui progrediu.

Pensou: “Eu pego um cavalo
Pra ajudar na viagem
Ou mesmo um jumento bom
Ou freto uma carruagem
Mas só moto por ali
Táxi a descer e a subir
E muita quilometragem.

Um “sordado de pulica”
Vinha passando adiante
Ele foi dar-lhe um abraço
Não tinha o ódio de antes
O nobre policial
Lhe foi cortês e leal
Por sinal muito falante.

Como estava de folga
Se puseram a caminhar
O soldado e  Lampião
Muita gente a espiar
Aquela cena marcante
Caminhada ia avante
Muitas novas a se inteirar.

Lampião dizia ao homem
Já fui sim um homem mau
Eu hoje estou transformado
E digo por ser leal
Procure fazer o bem
Faça sem olhar a quem
Do contrário se dar mal.

 O soldado lhe contava
O que ocorre no Brasil
Com os homens do planalto
E o dinheiro que sumiu
E o pobre do presidente
Agindo como imprudente
“Não fez, nem faz e nada  viu”.

Passando num hospital
Viu o povo agonizando
A fila fazia curva
Remédio e médico faltando
E o governo federal
Um projeto desleal
Já estava  preparando.

Aumentar tempo e o prazo
Para se aposentar
Sendo o projeto aprovado
O cabra vai trabalhar
Até perto de cem anos
Quando tiver arquejando
Pode sim ir descansar.

 Policial foi falando
De logo pra Lampião
Os tempos aqui são outros
Mudou a forma e a opção
Cangaceiro usa gravata
Caneta em vez de chibata
Sua arma é eleição.

Com essa conversa nova
Lampião se aperreou
 “Pensavam que era eu
Que promovia o terror
Mas vejo que em Brasília
Tem uma maior quadrilha
Que faz muito mais horror”.
  
“Vou sumir porque aqui
Tá pior que onde estava
Procurar outro pais”
Sumiu numa disparada
Dizem que foi encontrado
Na beira do mar deitado
Tá morando em Pasárgada.


Buíque, 01 de Outubro de 2016
 Paulo Tarciso Freire de Almeida
Autor


Nenhum comentário:

Postar um comentário