A AGONIA DO TIO JUCA


Literatura de cordel

A AGONIA DO TIO JUCA
(Pedido de socorro em favor do Rio Ipojuca)


Autor: Paulo Tarciso Freire de Almeida
Buíque – PE


Dedicatória

À toda sociedade, para que repensem os seus atos com relação à natureza. Também à todas as instituições que estão se engajando em buscar uma solução urgente, para socorrer o Rio Ipojuca.

Agosto de 2007

Autor: Paulo Tarciso Freire de Almeida

e-mail para mensagens: ptarcisofreire@hotmail.com
Celular (87) 9637.9801
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CEP 56.520-000





A AGONIA DO TIO JUCA
(Pedido de socorro em favor do Rio Ipojuca)

Autor: Paulo Tarciso Freire de Almeida
Buíque – PE
  

Quando eu nasci? – Nem me lembro
Foi há muito tempo atrás
Lá na serra das Porteiras...
Tenho saudade demais
Natural de ARCOVERDE
Entre Lagoa e Pedreiras
Lá perto dos manguezais.

Ao nascer fui logo andando
Não quis ficar só por lá
PESQUEIRA, BELO JARDIM
SÃO CAETANO a passear
E fui pra outra cidade
Pois minha felicidade
Foi correr pra vivo está.

Querendo ir mais além
Em CARUARU cheguei
Entrei também em BEZERROS
Dessa terra até gostei
Entrei também em ESCADA
IPOJUCA – Zona Mata
O nome que eu herdei.

Como gostei do passeio
Continuei a esticar
CHÃ GRANDE, TACAIMBÓ
Em PRIMAVERA quis ficar
Como vi outras cidades
Parti deixando amizades
E fui para GRAVATÁ.

Vinte e cinco municípios
É este o meu grande ninho
Cada um deles ajudei
Fiz crescer “devagarzinho”
Vilas viraram cidades
Ajudei, fiz caridade
Esse foi o meu destino.

Ajudei matar a sede
De muitos pernambucanos
A construir muitas casas
Serventes o barro traçando
De mim sempre precisavam
Quando o barro misturavam
E o pedreiro trabalhando.

O boi bebendo de mim
A sua sede matava.
Que saudade das crianças
Que quando em mim mergulhavam
Sorria e cantava a toa
A minha água era boa
Os pardais perto voavam.

As ondas correndo forte
Um som de encanto fazia
Os jovens enamorados
Eu tinha por companhia
Até pra um bom descanso
Pra pato, guiné ou ganso
De mim eles não esquecia(m).

Do meu produto a família
Precisou pra cozinhar
Pra lavar prato e o banho
E para a roupa enxaguar
Até pra construir prédio
Ou mesmo pra tirar tédio
Eu servi pra relaxar.

Em todos os municípios
Onde fixei residência
Eu ajudei a crescer
Nunca cobrei exigência
Era minha obrigação
Contribuir com a nação
Com paz, amor e decência.

Fiz algumas amizades
Com outros colegas meus
“Rio Peladas”, “Rio Salinas”
“Campo Novo” e assim se deu
Na minha margem direita
Uma amizade perfeita
Que o tempo não esqueceu.

Já na minha margem esquerda
Conheci alguns irmãos
“Riacho do Boi”, “Tabocas”
“Xique-Xique”  outros então
“Cedro”, “Mocós” e “Madeiros”
Meus amigos verdadeiros
Com a gente é só união.

Piabas, peixes dos bons
Em mim eles tinham morada
O pescador sobre mim
Pescando em sua jornada
Jogando a tarrafa ou rede
E muitos matando a sede
Todos de mim precisava(m).

A grande vegetação
Ao meu lado percorria
O verde me encantava
E quando a lua morria
Só se ouvia a correnteza
E a água boa na mesa
De quem minha água bebia.
  
Eu ajudei, eu me lembro
CARUARU a crescer
Cada casa, cada prédio
Da manhã ao alvorecer
Em cada fábrica que abria
Me tinham com alegria
Me orgulho assim de dizer.

O Alto do Moura, suas terras
Férteis, sua agricultura
Até mesmo a minha argila
Produziu muita cultura
E obras de qualidade
Divulgaram esta cidade
Diziam: “O rio nos orgulha!”

Das minhas margens eu vi
Produtos feitos com a mão
Fazer fama noutras terras
Até em outra nação
E tudo eu só assistindo
Eu ria feito menino
Feliz no meu coração.

Vi muitas vezes um homem
Chamado de VITALINO
De sobrenome PEREIRA
Criar um monte de menino
Só fabricando bonecos
Foi um homem muito esperto
E seu comércio expandindo.

Três ponto quatro três sete (3.437)
De quilômetros quadrados
É a minha extensão
Que percorro em meu Estado
Quarenta ponto um por cento (40.1%)
Vem servir de alimento
Minha água é usada pro gado.

Vinte, oitenta por cento (20.80%)
É pro consumo humano
Dezoito um (18.1%) pra limpeza
Sete (7%) energia gerando
E mais quatro ponto seis (4.6%)
Indústria tem sua vez
E muito emprego gerando.

Mas ainda produzi
Um crustáceo – o camarão
De sabor peculiar
Dando emprego e ocupação
Tudo que eu fiz foi perfeito
Ajudei muito prefeito
Com promessas de eleição.

Lá pela Zona da Mata
Ajudei na produção
Da boa cana de açúcar
E aquela população
Teve em mim uma saída
Criei emprego e dei vida
Sem cobrar nenhum tostão.

Os animais vinham a mim
Da minha água bebiam
Nas terras ao meu redor
O capinzal, a melancia
E muitas frutas gostosas
Barquinhos a toda hora
Rodavam na pescaria.

Até mesmo as lavadeiras
Também ganhavam o sustento
Usando das minhas águas
Dava comida ao rebento
Cantava lavando a roupa
E quando abria a boca
Eu me alegrava por dentro.

Eu servi até de cena
Não muito peculiar
Quando uns irmãos que eram crentes
Vinham a mim se batizar
Mergulhando em minhas águas
Limpas, puras e muito claras
Nova vida a começar.

E assim foi a minha vida
Fico triste ao me lembrar
Tenho saudade da infância
Ah, se eu pudesse voltar!
Tempo de vida e saúde
Lutei, dei de mim e fiz tudo
Hoje estou a lamentar!...

Fiquei velho como os homens
Cansei e fiquei doente
Não enxergo mais direito
Até o cheiro é indecente
Quem hoje passa por mim
Vê logo que estou no fim
Foge e se acha prudente.

As fábricas que ajudei
Seus empresários cresceram
E logo ficaram ricos
De mim tão logo esqueceram
O que me dão são detritos
E mesmo eu dando gritos
Pra mim até dão “arrodeios”.

Me sinto entristecido
Com o povo que ajudei
Porém, não me arrependo
Pois muito realizei
Mas hoje PEÇO SOCORRO
Não me entrego e não corro
Estou nas mãos de vocês!.
  
Eu quero viver mais um tempo
Não deixem então eu morrer
Aquele que me ajudar
Jamais vai se arrepender
Eu lhe terei por amigo
E lhe garanto, lhe digo
Que nunca hei de esquecer.

Me dêem algum remédio
Um “soro” se for preciso
Uma “injeção” de limpeza
Limpando “olhos e ouvidos”
Quero escutar passarinhos
Ver os pardais nos seus ninhos
Viver eu quero, eu suplico!!!!.

Em vez de uma vitamina
O lixo é o que me trazem
Restos de esgotos e detritos
Todo resto de bagagem
Jogam em cima de mim
Parece, querem meu fim
Vou seguir minha viagem...

Como Cristo lá na cruz
Que deram vinagre e fel
Crucificaram o inocente
Pensando que Ele era o réu
Estou morrendo aos poucos
Adeus, já estou quase morto
Mas não me deixem ao léu.

Me ajuuuuddddeeemmm, peço socoooorrrro!!!
Vai ser preciso gritar?
Se for, não posso, estou fraco
Não posso mais caminhar
Me ajudem irmãos e amigos
Eu, eu, pen-pen-penso que voooou desma-ma-i-iar...

- - x – -
Agosto de 2007



Mensagem final do autor:

Nosso Deus perdoa sempre
O homem, alguma vez
Mas a natureza nunca
Àquele que mal lhe fez
Um dia tem que pagar
Do rio vamos cuidar
Conto com todos vocês!.


Paulo Tarciso Freire de Almeida
Buíque – PE



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