VIOLÊNCIA NA TV VIOLÊNCIA NA TV


Dedicatória

A todos que de alguma forma contribuem para uma programação 
mais educativa e cultural da televisão brasileira, para que saibam diferenciar 
o que é entretimento e o que é pura e simplesmente lucro televisivo gratuito.  

Literatura de cordel

 VIOLÊNCIA NA TV

É uma istora ingraçada
Que pra vocês eu discrevo
E tem várias tistimunha
Muitas dela aqui eu vejo;
Foi lá no Sítio Fundão
Que um amigo quaje irmão
Sua cabeça isquentou,
Tudo dispois que comprou
Pra casa uma televisão.


Seu Armando um sessentão,
Casado cum Dona Éster,
Velho bondoso e disposto,
Rigoroso eu sei que é,
Dos tempos da ingnorança,
Pois quando ele era criança
Inzistia coroné.

Pois bem! Esse véi seu Armando
Tem cinco fia muié;
As rainha da beleza.
Digo pruquê sei que é;
Duas dela são casada,
Tem também um camarada 
Que se chama de Jusé.

Rosinha a fia caçula
Foi passiar na cidade,
E na casa de uma irmã
De quem sintia saudade,
Trinta dia ali passou,
Muita amiga ela arrumou
E era tudo diversão;
Mais de tudo que ela viu,
O que mais lhe distraiu
Foi a tá televisão.

Repórte, filme ou novela,
Rosinha a nada perdia.
Cunversano ela dizia
O nome dos personage,
E fazeno um sundage
Pelo que eu apurei,
Rosinha mudou demais.
Cuma foi isso eu num sei!.

Me falou de um prefeito
Que tinha o nome Sassá,
De Bárbara, Gilda e Severo
E o povo de Tangará.
Me diche dôta novela
Que tem um indolatrada
E dum rei de nome Petrus,
Que quando via de perto
Rosa ficava incantada.

Por arte do sapirico
Teve uma celebração,
Que no Salvador da Pátria
Chamou muita atenção;
Falo de um casamento,
Perfeito acunticimento
Que a Rosinha assistiu;
Quem tava lá tudo viu:
Traição im lua de mel.
Que Deus perdoe lá do céu,
Isso né coisa decente,
Para que se apresente
A uma moça donzela 
Que foi criada no sítio
Só veno mato e cancela.

No retorno de Rosinha
Foi aquela aligria
Abraçando o velho pai
Que tanto bem lhe quiria
A mãe e a todos irmãos
E os vinhos do quinhão
Que sua falta sintia;
Pois tava cum trinta dia
Que ninguém mais caçuava
Pruquê sem Rosinha no sítio
Aligria num reinava.

Rosinha contou para a mãe
Sobre tudo que assistiu
Diche sobre o casamento
Que na televisão viu
A noiva jogando flores
Em televisão a cores
E assim pra mãe pidiu:

Eu quiria que a sinhora
Cum papai fosse falar
Pra ele vender uns bode
E o dinheiro que apurar
Comprar uma televisão
Pois a maior diversão
Que hoje pode inzistir
É um tv colorido
Isso eu posso garantir

O véi ficou mei cabreiro
Pruquê nunca concordava
Em vê suas fia moça
Que tanto amor dedicava
Olhar praqueles pecados
Que a Tv apresentava.

Mesmo assim chamou a veia
Se pusero a conversar
E um acordo firmaro
Nesse ato cumbinaro
A televisão comprar. 

Na casa do genro Arlindo
O veio foi passiar
E a tv foi ispiar
Ficou naquela peleja
Viu umas cenas tão linda
Na novela Dona Beija
Que pensou a noite inteira:
Rosinha tinha razão
Num vejo nenhum pecado 
Comprar a televisão.

Dispois de tudo instalado
Ligaro a televisão
E um filme muito antigo
Começou a inzibição
Produzido preto em branco
Segundo as letras dizia
Mas o véi num sabia
E começou a xingar
Dizia: aquele ladrão
Pensa que vai me inganar
Eu comprei foi colorida
Essa daí tá perdida
Quem vendeu vai me pagar!
.
Passou umas propagandas
Da novela Dona Beija
E era bem colorida
E o véi diche: Mai veja!
Inda agora era só branco
E tudo agora coloriu?
Essa ta é cum defeito,
Onde é que já se viu?
Vou pegar o vendedor 
E dá-lhe um tiro de fuzil. 

Rosinha tudo intindia
Cumeçou a ixplicar
E o véi foi se acalmando
E num banco foi sentar.

A famia se ajuntava,
A gurizada se ispaiava
Se assentano pelo chão,
E as moça cumbinava
Pra dispois da refeição
Lavar os prato e inxaguar
Pra dar tempo a inspiar
A tá da televisão.

As cunversa im famia
Já num inzistia mais,
Ninguém mais batia papo,
Fosse moça ou rapaz,
Pois a novela das oito
Chamava muita atenção,
Pidia concentração
Pra quem quisesse intender.
Ninguém quiria perder
Nenhuma parte siquer.
E inté mermo as muié
Deixaro de fuxicar
E quando batia as oito
Que cumeçava a novela, 
Dava inté um nó na güela
Pra parar de cunversar.

Ôta coisa que o Armando
Cumeçou a disgostar
Foi as tá das propaganda
Que os fí ficava a ispiar
E aperriano o véi
Querendo tudo cumprar.

Era uma bota da Xuxa,
Um bonezim do Sassá,
Uma blusa da Angélica,
Discos para escutar,
De preferença em inglês,
Caipira perdeu a vez
Pruquê na televisão
Ser boy é rock paulêra
E ôtas tantas besteira
Que deixou-lhe acabrunhado
Em ver seu lar de sussêgo
Num’stante ser transformado.

Seu Armando ficou brabo
Na noite que foi ciar,
E o cuscuz que ele gosta
A véia deixou queimar,
E a carne lá da gréia 
Por pouco virou torrão,
Só prucausa da novela
Que tem na televisão.

As nutiças do Jorná
Trazia preocupação:
Natureza amiaçada,
Guerra im toda nação,
Aids, cânce, minigite,
Sem falar na infração
Que corre disimbestada
Sem frei de pé nem de mão.

Cum pouco os fí de Armando
Perdero a inducação:
Respondia aos mais veios,
Não lhe dava atenção;
Deixaro de dar a bênça
Pruquê viro na novela
Quando um fí dizia ao pai:
--- “Corta véi, isso já era!”

Logo dispois da novela
As letras grande avisou:
Este filme é proibido
E a censura liberou.
Era um filme de sexo
Quase igual a pornô,
O véi num sabia ler
Purísso nem se ligou.

Cumeçou cum um casal
Que trocava palavrão.
O véi de urêia im pé
Pegou um pau cum a mão
E ficou alí calado
Esperano o resultado,
E todos de ôi grelado
Olhando para o casal
Que de brigar logo parava
E numa cama se deitava
E uns carim e coisa e tal.

Quando o casal lá do filme
Cumeçou a se dispir
Seu Armando ficou branco
E pegou logo a tussir.
Se retirou para um quarto
E ficou a carregar
Um bacamarte antigo
Que ele tinha pra lá.

Quando voltou para a sala
Vermelho que só pimenta,
Ninguém viu o bacamarte
Nem sintiu sua presença,
Inquanto lá na TV
Já tava nú o casal
Um no outro amuntado
E todos de ôi grelado,
Muntos de queixo na mão.
Pêêêêiii. Seu Armando deu um tiro
No mei da televisão.
Toda luz se apagou,
Munta gente dismaiou
E a TV virou torrão.

Acendero uns candinheiro,
Ajeitaro a istalação,
Fizero muita garapa
Pois foi grande o supetão,
E quando normalizou
O véi bem corado ficou
Cum bacamarte na mão
Subiu na mesa e falou:
“--- ENQUANTO VIVO O VÉI FOR,
NUNCA MAIS TELEVISÃO!”.
           
Autor
Paulo Tarciso Freire de Almeida
Rua Odilon Nopa de Azevedo, 45.
   CEP 56.520-000.      Buíque – PE

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