sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

BREVES COMENTÁRIOS SOBRE O CONTO "MINHA GENTE" DE GUIMARÃES ROSA.


           


          MINHA GENTE é o novo conto que passo a comentar nesta tarde, mais um capítulo do livro SAGARANA, do escritor GUIMARÃES ROSA.

                No livro que tenho em mãos, o conto está narrado em vinte e cinco folhas, de uma leitura tão prazerosa que a gente começa e não quer parar antes da conclusão. No resumo e comentário abaixo discorro sobre o conto, negritando os personagens e escrevendo em negrito e em itálico, algumas passagens alguns textos da obra.  

                O conto foi escrito na Fase do modernismo (Meio do século XX), tem forte dose de lirismo, nos remete aos costumes e aos infortúnios da vida da roça. A maior parte do cenário é a Fazenda Saco-do-Sumidouro (interior de Minas Gerais), pertencente ao tio do narrador (tio Emilio), pai de Maria Irma. Ao final, como o leitor pode constatar, parece aqueles antigos romances que conclui declarando: “...E foram felizes para sempre”.
                Logo na primeira página, antes de começar de fato o conto, seguido do título, lemos o trecho de uma cantiga, cujos versos são:
                                                Tira a barca da barreira
                                                 deixa maria passar
                                                  Maria é feiticeira
                                                  ela passa sem molhar”.

                O conto é narrado na primeira pessoa, isto é, o narrador participa da história do início ao final. No início do enredo o narrador, que mais adiante é conhecido como “Doutor”, o  Sr. Santana, que é um inspetor escolar com dez ou doze municípios para inspecionar e ainda o Sr.  José Malvino, estão caminhando juntos, pelas estradas e observam a bonita paisagem mineira: as árvores, o céu, os pássaros, etc.
- Vai para a fazenda? Vou aos Tucanos. Vamos juntos então.

                “O fraco e também o forte de seu Santana é o “nobre jogo de xadrez”. Ele sempre traz consigo, na mala da viagem um taboleiro; uma coleção de peças grandes; outros trina e dois trebelhos de menor formato; mais outro jogo, de reserva (...) recortes de jornais com partidas dos grandes mestres; e alguma roupa também”. O narrador fica admirado com o jogo de xadrez de Santana e durante o jogo dialogam usando vários termos da literatura.
- Pronto. Você podia jogar mais depressa, a partida está desinteressante.
-Não acho.
- Era melhor continuarmos aquela “Ruy López” que não acabamos da última vez...
                Mas já Santana rearrumava as peças e sumia no bolso a carteirinha. - Adiemos esta partida. Vamos conversar.

                Mais adiante aquele grupo de amigos se separa e o narrador (Doutor) agora está na Fazenda do seu tio. Em apenas dois dias ele que é um observador encantado com as paisagens sertanejas, sempre elogiando tudo, percebe que tudo ali estava mudado, porém, o que mais o chamou a atenção não foram as mudanças estéticas ou físicas, mas o comportamento do seu tio Emilio, que agora estava metido na política, recebendo visitas, atendendo pedidos do povo a todo instante, até mesmo a noite.

                Em meio ao enredo do conto, fazendo menção as campanhas políticas do Fazendeiro Tio Emílio e seu opositor, o leitor vai perceber fatos muito comuns, ainda hoje, nas campanhas políticas das cidades interioranas. Vejamos:

              “Agora, o que mais depressa aprendi foram os nomes dos diversos partidos. Aqui temos: João de Barro – que faz a casa – e Periquito – que se apodera da casa,  no caso em apreço o governo municipal. No município nº 2, hostilizam-se: Braúnas – porque o respectivo chefe é um negociante de pele assaz pigmentada – e Sucupiras – por meras antinomia vegetal. Noutro lugar, zumbem: Marimbondos versus Besouros. E, no município nº 3, há Soca-Fogo, Treme-Terra e Rompe Rocha – intitutulações terroríferas, com que cada um pretende intimar os dois outros...” 

                Tio Emílio tem duas filhas: Helena, que é casada e não mora na fazenda e Maria Irma, uma moça linda e “graciosíssima”. Logo o narrador fica encantado com a prima, por quem se apaixona perdidamente, no entanto, em breve conversa ela deu a entender que já estava quase noiva. O enredo demonstra a timidez dele para fazer a confissão à prima, e quanto tenta se declarar ela sempre foge do assunto.

                Em todo o conto é perceptível a paixão do narrador pela prima Irma e a dificuldade deste em fazer a confissão. Em algum momento de conversa “olho no olho” imaginamos que vai chegar o momento, porém todas as vezes que a “conversa se aproxima” ela desvia o assunto.

                Certa ocasião, o narrador, que agora sabemos que é conhecido como Doutor fica na varanda até o anoitecer e, no momento do jantar, Irma, sua prima sorri diferente para ele, deixando-o desconfiado. “Mulher bonita, mesmo sendo prima, é uma ameaça”. É nesse momento que ele recorda a recomendação do amigo Tertuliano Tropeiro: “Seu doutor, a gente não deve de ficar adiante de boi, nem atrás de burro, nem perto de mulher?.  Nunca dá certo...” O narrador foi dormir. 

         O narrador conhece Bento Porfírio, um pescador falador apaixonado pela prima de Lourdes, a qual já é casada com Alexandre, mas mantem uma relação ex-conjugal com o pescador.

 “Bento Porfírio volta a falar na amante: O marido, O Alexandre não sabe que está seno enganado.... Mas aquilo não e pouca-vergonha, não: é amor sério.... A de Lourdes não tolera o marido, não dorme com ele, não beija, nem nada... Estão combinando fugir juntos...”.             
                Ao descobrir a traição Alexandre mata o traidor e o narrador presencia a cena do crime, indo, de imediato contar o ocorrido ao Tio Emílio, que, “metido nas eleições: e coo medo de perder eleitores, e votos:
“- Mas, Tio Emílio, o senhor não é tão justiceiro e correto, e que gostava tanto de Bento Porfírio, vai deixar isto assim? Não vai mandar, depressa, gente atrás do Alexandre, para ver se o prendem?
- Tio Emilio, alisando a sua palha, e com o sorriso que um sábio teria para uma criança, olhou-me, e disse:
“Para os mortos... sepultura!.... Para os vivos.... escapula!.”

                Finalmente o primo cria coragem e a declaração para Irma acontece, sem dela, que diz que vai lhe apresentar uma amiga, muito bonita, a Armanda

                O narrador fica muito triste com a recusa da prima, vai embora da fazenda e se dirige a Fazenda de outro, tio, o Luduvico, em três Barras- MG. Lá é bem acolhido e passa alguns dias. Porém, um dia recebe duas cartas, sendo uma do amigo Santana, querendo terminar a partida de xadrez e a outra do tio  Emílio, vencedor das eleições e que queria que o sobrinho participasse das festividades.         

                O narrador retorna a Fazenda, ainda esperançoso do amor da prima Irma; mas quando pergunta ao Tio Emilio:
- Onde está Maria Irma? Estava no jardim, e tinha mesmo de estar no jardim.
-Mas não estava só. Ruborizou-se. Ofegou. E apresentou-me à outra.
- Meu primo.... Armanda.

                Quando o narrador põe os olhos em Armanda, (moça bonita, filha de fazendeiros e que estudou no Rio de Janeiro), como acontece nos antigos romances, aconteceu o “amor à primeira vista”
- Prefiro caminhar. Quer? : - perguntou-me Armanda. Quis. Andamos. Calados. Crescia em mim uma coisa definitiva, assim como a impressão de que já conhecê-la, desde muito, muito tempo.  
- Armanda jogou fora o botão de bogari, e entrecruzou os dedos. E disse:
- E com você que eu vou casar.
- Comigo !?...
- Então, por que você não me beija? Porque aqui na roça não é uso?.
                 E foi assim que no mês de maio o narrador do enredo (doutor) se casou com Armanda, antes mesmo do matrimônio da prima Maria Irma com o moço Ramiro Gouveia...

FRASES QUE MERECEM DESTAQUE:
“Para os mortos – sepultura !... Para os vivos, escapula”
“Peixe é bicho besta que morre pela boca”
“-Seu doutor, a gente não deve de ficar adiante do boi, nem atrás de burro, nem perto de mulher!.  Nunca que dá certo””
“Talvez, num lugar que não conheço, aonde nunca irei, more alguém que está à minha espera... E que jamais verei, jamais...”
“Quem fala muito, dá bom dia a cavalo”

Leio e recomendo aos apreciadores de um bom conto, com narrativa de um grande escritor mineiro que foi Guimarães Rosa. De Minas Gerais para o mundo.

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