quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

REFLEXOS DE UM PASSADO, NO MEU PRESENTE




         No ano de 1975 Roberto Carlos gravou uma canção intitulada o quintal do vizinho”, cuja primeira estrofe diz: “Eu hoje acordei pensando no sonho que tive a noite, sentei-me na cama para pensar no sonho que tive..."

         Pois bem, aconteceu comigo também, num contexto diferente da gravação acima referida. Era mais ou menos 4:00 da madrugada, quando estava num sono profundo e sonhei:

         “Estava no cartório do velho Xéu, que ficava no centro da cidade, ali ao lado da Igreja Matriz de São Félix de Cantalice. Eu era, como antigamente, seu funcionário. No sonho eu sabia que ele já havia falecido, mas era como se vivo fosse. Atendia algumas pessoas no balcão e, como sempre, ele conversava bastante, sempre brincalhão. 

 - Xeu, o homem mais rico do Buíque -alguém disse da calçada.

–Tomara que essa praga pegue!,  foi sua costumeira resposta.

        Quando o sol estava se despedindo do dia, ele pegou algumas coisas no seu velho birô e recomendou: “Paulo Robson, (era assim que me chamava, brincando), eu já estou indo. Até amanhã. Ao saírem confiram se as portas estão fechadas direito!. E saiu pela praça Major França, em direção aos carros de lotação que o levaria para Arcoverde. Havia uma funcionária recém chegada no cartório, mas, no sonho não a reconheci.   

       Quando o velho Xéu atravessou a rua, teve que passar por entre as barcas do velho parque dos irmãos Dêca e Leba, que estava armado na praça central, já que era período natalino e cidade estava em clima de festa.

       Buíque, apesar de ser a mesma, parecia outra cidade. Totalmente limpa. Os prédios principais do centro, continuavam, mas pareciam mais novos e conservados. Ao redor do centro, vários edifícios com três ou mais andares. Comércio gigante, e muita gente caminhando pelas ruas. O sol soltava seus últimos raios do dia, iluminando a parte nascente da cidade – fazendo uma bonita paisagem na antiga praça São Sebastião, e nela ainda existiam aquelas antigas e gigantes árvores, com suas folhas soltas pelo chão, como que dando sinais que o inverno estava chegando. Andorinhas cantavam e voavam naquelas imediações. Nos bancos daquela praça, alguns idosos conversando, talvez relembrando passagens de suas vidas, quando jovens.

       De repente, no sonho fui transportado para o velho Cine Nevada, onde de posse de um disco de vinil, fazia tocar nas difusoras espalhadas na cidade, a canção "Ansiedad", do Nat King Cole, anunciando o filme que seria exibido naquela noite.

       Como num cinema, o filme (o sonho) continuava rodando. De repente me vi numa faculdade gigante, fazendo um novo curso, ao lado de alguns colegas, muitos deles que cursaram direito comigo na mesma instituição. Naquele dia seria a realização de uma prova. O professor entrou na classe explicou como seria a avaliação e começou a distribuir as provas com os alunos. Quando entregou a minha e comecei a preencher os dados, me acordei, assustado com um barulho. Foi minha esposa, ao meu lado, que irritada com o ventilador, deu um espirro e me transportou do sonho para a realidade".

       Porque sonhei tudo isso eu não sei, só Freud explica. Mas outro filósofo  popular e nordestino também tem sua versão:  o Chicó, personagem do “Auto da Compadecida” conclui:  Só sei que foi assim".   

          Agora, quem quiser que conte outro!

P.S. Podem acreditar, não foi invenção minha. O sonho aconteceu na madrugada de 20.01.2020, segunda feira. 

No Link abaixo, para matar a saudade, a música Ansiedad, de Nat King Cole, muito tocada na época do cinema:
Ansiedad - Nat King Cole

Para melhor visualizar o sonho, publico algumas fotos que lembram o que foi descrito.
Vista parcial aérea de Buíque, por/Francisco  Carlos (Blog Buíque&cia)
Xéu de Buíque - foto 1 por Paulo Barros e foto 2 por Villson Fotografias
Quadro do artista Billy Kid
 
Antigo Cine Nevada. Ao lado os correios, onde atualmente funciona a  Caixa Econômica Federal

Foto 1- fachada da Asces - Foto 2: Prof. Xisto, João Henrique, Paulo Tarciso,  Marco Aurélio e André Paulo.Foto 3-Turma Direito 2008. Foto 4: Paulo Tarciso, André Paulo, Daniel e João Justino. Tempo bom.  

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

O MENINO QUE VIVE EM MIM - PROF. ERALDO GALINDO



        Neste manhã de segunda feira, tenho o prazer e o privilégio de publicar neste site um poema escrito pelo dileto amigo, professor Eraldo Galindo. 

        Formado em teologia e filosofia, Galindo por muitos anos fez parte do elenco de professores de excelència da Faculdade de Formação de Professores de Arcoverde, e em seus poemas sempre nos transporta para o que há de melhor na vida do ser humano. Há mais de vinte anos mantém uma coluna no Jornal de Arcoverde, com o título "Um olhar sobre a vida", onde publica crônicas, sempre nos fazendo refletir sobre a vida em suas nuances. No poema ora publicado, o leitor se deleitará com cada palavra e se identificará ao perceber que na verdade, todos nós temos uma criança que habita conosco, mesmo num corpo de adulto. É esse menino que você vai conhecer agora. Ei-lo:        




   O MENINO QUE VIVE EM MIM


                Eraldo Galindo



Solta pião,
pula fogueira,
joga bola,
brinca de roda
e de esconde-esconde,
segue passarinhos,
sobe em árvores,
colhe frutos,
amassa barro de chuva,
escala telhados,
mira estrelas,
inventa barcos e mares,
desbrava ignotos mundos,
entoa cantigas de roda,
busca colo da mãe
e afagos do avô,
pede bênção de padrinho
na intenção da proteção divina
e do mimo,
faz guerra de travesseiros com outros
de igual traquinagem,
pula cercas,
rompe fronteiras,
explora espaços desconhecidos,
tem medo do escuro,
ama a luminosidade do dia,
desenha nas retinas animais e anjos
com os fiapos das nuvens,
rouba manga no quintal do vizinho
como se fosse a maçã proibida do Gênesis,
escreve o nome no banco da escola
perpetuando o substituto na tosca madeira,
esboça tímidos versos
que brota do peito ainda virgem
e, no entanto, já sacudido de paixão,
desenha um coração no roto caderno
em secreta homenagem ao primeiro amor.

Existe um menino brincante
dentro de mim.
 Esse moleque feito de sonhos
Dá forma à minha alma.
Com suas mãos pinto o arco-iris,
rego flores,
Toco pedras e plantas.
Com seus olhos
vejo beleza e magia
nas coisas do mundo.
Essa criança orna meus dias,
Me acalanta nas noites frias e escuras.

O menino que existe em mim
Olha as rugas que me marcam a pele:
Sinais dos longos anos
E das muitas estradas percorridas.
Vê com olhos de compaixão
O homem que agora sou.
Tenta me falar da infância sob o sol
e o calor das emoções primeiras.
Traz à minha memória cansada
as travessuras do moleque
que olhava com candura o mundo
e não temia a vida
por senti-la mágica e eterna.

O menino que sonha denro de mim
não se perdeu nas curvas da vida.
Ainda me fala sobre a plenitude das cores
E sabores da existência.
O menino de riso solto,
pés velozes,
inventor das alegrias,
solto na buraqueira do mundo,
carrega a fé,
de que a vida jamais terá fim.

O menino escondido
no meu vasto território
incompleto, carente
e sedento de luz,
me fez lançar à terra a semente
e esperar os bons frutos do amanhã.

Todas as manhãs chamo pelo menino
que vive em mim.
Mais uma vez, preciso ouvir
seus gritos sem medo,
os saltos no escuro,
a confiança invencível,
os risos em cascata,
o fluir das doces emoções
de um coração em flor.

Se o menino fugir de mim,
sumir no oco do mundo,
minha voz calará,
os versos morrerão na garganta,
os olhos apagarão o sol.
Serei solidão,
pó e esquecimento.

A cada nova manhã
sinto o borbulhar da vida
por conta desse brincante menino
que (ainda) me sacode o espírito,
cantante e feliz.
Ele me olha com sorriso largo
e faíscas de esperanças nos olhos.

Ousado e intempestivo, o menino não teme
os limites  e dores da humana condição.
Tem asas nos pés
Quando infla o peito mais uma vez
e corre solto,
no oco do mundo.
Busca apaixonadamente a terra prometida,
sem saber que o lugar da sua utopia
está dentro dele.

Pouco importam as rugas do  tempo
e as feridas da vida.
Há um menino brincante dentro de mim.

 
                                                      Eraldo, 25, junho, 2019